Não bastasse a crise sanitária causada pela pandemia enfrentada neste momento no Brasil,  a fome voltou a assolar severamente o país. Atualmente, são 19 milhões de brasileiros e brasileiras que passam fome, e mais da metade dos domicílios enfrentou algum grau de insegurança alimentar nos últimos meses, de acordo com a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan).  Em contradição ao momento, o povo indígena Awá-Guajá, no Norte do Maranhão, dá exemplo como é possível plantar, colher e se alimentar da terra.

Através da assessoria técnica do ISPN, por meio do Subprograma Etnodesenvolvimento (ver detalhamento em nota), cerca de 40 famílias indígenas do povo Awá-Guajá estão realizando a colheita do que vem sendo plantando desde o final do ano passado em áreas de cultivo permanente, como feijão, milho e abobora, além da produção de farinha a partir do beneficiamento da mandioca. No total, a produção dos Awá chegou a 60 toneladas desses produtos.

“As áreas de cultivo permanente são preparadas com auxílio de equipamento, sem danificar o solo e de forma constante, sem queimadas e desmatamento. E, que pode ser usada por um bom tempo, em um único lugar e em rodízios com outras atividades produtivas”, explicou o assessor técnico e agrônomo do ISPN, Chico Junior.

Toda a produção das áreas plantadas vai para a própria alimentação das famílias, que estão organizadas em três aldeias: Nova Samyã, Tiracambu e Awá, na Terra Indígena Caru. A esses produtos da roça, se somam à tradicional prática da caça para garantir uma alimentação saudável nas comunidades.

“A nossa colheita foi boa. Tiramos arroz, mandioca, feijão. Com a mandioca vamos fazer farinha. Ajuda bastante para nossa alimentação e das nossas famílias. A roça é um trabalho importante que nos alimenta”, enfatizou o cacique da Aldeia Tiracambu, Paky Guajá.

Os  Awá-Guajá são povos de recém contato, e vivem em grupos formados por uma ou mais famílias. A atividade tradicional própria dos Awá-Guajá é a caça. É ela que define o padrão de ocupação territorial desse povo, que percorre grandes distâncias em busca do alimento. Ainda hoje, os Awá-Guajá conhecem e dominam o território com base nos caminhos de caça, nesse sentido, precisam de florestas vastas e ambientalmente íntegras. O plantio é hoje mais importante para a manutenção da sua reprodução física e cultural, em complementariedade com a caça, devido às limitações impostas pelas pressões trazidas pela sociedade nacional brasileira.

ETNODESENVOLVIMENTO – O Subprograma Etnodesenvolvimento compõe o Plano Básico Ambiental / Componente Indígena (PBACI) Awá e Guajajara das Terras Indígenas Caru e Rio Pindaré, localizadas no estado do Maranhão. O PBACI é parte do processo de licenciamento ambiental da Expansão da Estrada de Ferro Carajás (EEFC) de responsabilidade da empresa VALE S.A, junto à FUNAI e ao IBAMA. A implementação é realizada pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN).

O Subprograma promove assessora técnica às atividades produtivas e extrativistas. Nos territórios dos Awá-Guajá, são desenvolvidas a meliponicultura, extração do óleo da copaíba, avicultura com galinhas caipiras e área de cultivo permanente. “A proposta é criar condições de oportunidades e, ainda, ampliar seus conhecimentos na busca de alternativas de sustentabilidade produtiva e econômica. E, promover melhoria da qualidade de vida diante de um novo contexto socioambiental”, ressaltou Chico Junior.

Fonte: https://ispn.org.br/e-tempo-de-colher-os-awa-guaja-ensinam-como-plantar-e-garantir-alimentos-em-tempos-de-pandemia/